Por Marcos Moura
- Breve resumo do problema:
Tentarei ser o mais breve possível nesse texto, assim como tentarei me ater o máximo possível a uma única linha de pensamento. Após vários amigos me pedirem para voltar a escrever em um blog e depois de pegarem no meu pé para falar do presente tema, decidi dar o braço a torcer.
As redes sociais e conversas de whatsapps da vida foram inundadas recentemente com a polêmica de uma apresentação performática onde basicamente um círculo de atores nus ficam continuamente um “catucando” o “fiofó” do outro.
A apresentação se resume a 8 atores nus, correndo/adando em círculos, com o dedo no ânus do ou da coleguinha da frente.
A reação do público não “especializado”, ou seja, o público para quem o trabalho foi idealizado e exibido, reagiu, de forma geral, negativamente. Do outro lado da balança, porém, um público mais “antenado” reagiu, como de costume, acusando aqueles que não gostaram nenhum pouco de: quadrados, limitados, burros etc.
Vamos por partes.
Esta é uma pergunta filosófica, mas não tenho qualquer intenção de fazer um livro sobre o assunto, seja por falta de embasamento teórico, conteúdo, disposição ou saco.
Certa vez, conversando com amigos artistas de várias áreas, mas especialmente com um artista plástico, levantei a questão que na arte contemporânea tudo é arte; concordando comigo ele completou explicando que, para entrar em uma mostra artística ou exibição, o seu texto fundamentando o trabalho é avaliado, se você fizer uma boa justificativa, seu trabalho entra.
Como advogado eu diria que isso se resume a uma boa argumentação, como alguém que cresceu jogando bola na rua, eu diria que isso pode ser chamado de ter um bom “Caô”. A arte contemporânea apareceu no horizonte como uma forma de dar maior liberdade aos artistas, livrando-os de limitações, o que se viu na prática, desde então, foi a completa dilatação do trabalhos artísticos ao ponto de que comprar pão na padaria tornou-se uma obra prima.
Se pensarmos bem, a arte contemporânea diminuiu todas as formas artísticas ao segundo plano, em detrimento da escrita. Não é a escultura, a dança, a interpretação ou a pintura que se define e se validada por si só; Sua existência está além dela, está fora, em outra arte.
- Tudo é arte?
Então tudo é arte? Os artistas, do alto de seu trono dirão que não, o relativista dirá que toda produção artística tem o mesmo valor, seja uma música do bonde da maravilhas ou a 9º Sinfonia de Beethoven.
Recentemente, um aluno da Universidade Federal de Pernambuco foi vítima de um choque e as pessoas aplaudiram sua performance, confundindo uma contração involuntário, violenta e súbita de um grupo de músculos, provocada por uma descarga elétrica, com uma apresentação performática.
Jogar tinta na vagina e derramar em uma tela em plena rua e a técnica usada por Leonardo DaVinci para criar a Monalisa são consideradas de mesmo valor e importância, por grande parte do mundo artístico.
O Padre Antônio Vieira, no seu “Sermões”, diz que “Demócrito ria sempre: logo nunca ria.” Disso decorre que, se tudo arte se torna, na verdade, arte nada há de ser.
- A arte tem uma função?
Alguns dirão que a arte serve para alegrar, outros dirão que ela serve para elevar o espírito humano, para perseguir a perfeição e a pureza, outros dirão que a arte é o veículo da magia e do despertar ta mente humana, mas dentre todas as respostas possíveis, talvez a mais popular nos nossos dias seja: A arte tem a função de chocar e provocar as pessoas.
- A função da arte é chocar e provocar?
Sim, a arte pode ser o veículo pelo qual o artista provoca ou choca as pessoas. Normalmente, após o choque inicial, o espectador se pergunta: Tudo bem, e agora?
Esse “e agora” é o calcanhar de aquiles de muita gente, por que existem trabalhos tão focados em chocar e atingir o espectador, ao ponto de ferir, que não sobra qualquer sopro de inspiração para dizer nada.
O veículo torna-se tudo. A arma está lá, apontada, suspensa no ar, sem uma mão que a empunhe.
O artifício, torna-se tudo, e a obra jaz vazia. Não por acaso, existem obras inteiras compostas como uma corrente esquizofrênica, onde você é levado ato, após ato, por uma torrente incessante de composições agressivas e virulentas. Um mau artífice com frequência usa fogo em demasia.
- O choque e mais nada?
Quando um artista busca apenas chocar o espectador, naturalmente, ele deve esperar uma reação não muito complacente de quem assiste ao espetáculo. Ironicamente, a reação, que já era esperada, e a crítica negativa costuma ferir o ego da classe artística, que logo ressoa a defesa acalorada de seus pares, como uma Marilena Chauí em crise existencial, acusando as pessoas de serem retrógradas, quadradas e moralistas.
Xingamento e vitupério não absolve aqueles que defendem um santo oco. As pessoas tem suas vidas, seus afazeres, preocupações e dilemas para lidar e comumente não estão em contato com a arte, mas ainda assim elas tem uma boa referência das obras realizadas por gigantes, ainda que não entendam as nuances ou conheçam os conceitos por trás de uma sinfonia, as pessoas são tocadas, inspiradas e arrebatadas diante da grandiosidade do movimento final da estonteante 9º Sinfonia de Beetoven, que reordena partes do poema “An die Freude” de Friedrich Schiller, celebrando a felicidade.
As obras que resistiram ao passar dos séculos, resistiram por que criaram as condições para tocar o espírito humano. Você acha que existe qualquer possibilidade de uma obra de shakespeare ter sido tão popular ou recebido a mesma divulgação que uma música da Anita recebe? Shakespeare, Mozart, Bach foram gigantes que criaram trabalhos artísticos próximos da perfeição e é por isso que suas obras sobrevivem ao tempo, por que elas representam o que há de divino no ser humano.
A crítica mais fácil a este argumento é dada com o eterno posicionamento reducionista de que tais obras só foram conservadas por que eram trabalhos consumidos pela elite.
Bem, esse argumento falha por que ele desconsidera o ser humano, as vontades e forças invisíveis que impulsionam as pessoas. Primeiro de tudo, os trabalhos populares, consumidos pelo povo não tinham nenhuma ligação com as belas artes, sendo assim, estas gozavam de uma popularidade bastante inferior às músicas pop de suas épocas; em segundo lugar, várias coisas que já fizeram parte do ambiente cultural das elites se perderam no tempo, sendo abandonadas ao esquecimento pois não mais ocupavam lugar nas mentes das pessoas. Os floreados das roupas masculinas do período de Luis XVI são um belo exemplo de um bem cultural da elite que fora abandonado por puro desuso.
A alta cultura da nossa sociedade, fecundada no ambiente Greco-Romano e gestada no útero Judaico-Cristão, é parte indelével do nosso inconsciente coletivo, então quando uma pessoa vai a uma exposição de arte, a uma peça de teatro, mesmo sem qualquer conhecimento profundo em arte, resta em sua memória, ainda que como uma impressão fugaz, a lembrança do legado de gigantes, por onde eles medirão o trabalho que lhes é apresentado.
- Quem fala o que quer, ouve o que não quer
A proposta da peça/performance “dedo no reto”, ops, “macaquinhos, a arte de explorar o cú alheio”, segundo informações da mídia, é apresentar ao público formas diferentes de arte. A performance veio, fez o que queria fazer, ofereceu o que possuía e recebeu o que o público havia a dar.
O público viu, procurou entender, mas não havia o que entender; o público esperou uma explicação e esta também não havia; o público recebeu e não gostou do presente. Presente não é o termo, já que a performance recebeu verba pública, logo o cliente comprou um serviço que achou de mau gosto e fez o que um cliente descontente faz, reclama e reprova.
Os artistas não tem do que se queixar, decidiram cheirar uma coisinha em praça pública, em um país que está cansado de esgoto a céu aberto, a resposta era mais do que esperada, e se ousadia há, as críticas negativas deveriam ser bem-vindas, sinal que o trabalho atingiu sua meta.
O problema ocorre quando a natural reação negativa dada pelo público começa a gerar discussões emocionadas por parte dos simpatizantes da performance, sempre com críticas à postura das pessoas que se chocaram ou não gostaram do espetáculo.
É comum ver os simpatizantes dos macaquinhos acusarem as pessoas que criticam a performance com adjetivos como retrógrados, quadrados, entre outros termos parecidos. Quando deveriam aceitar as críticas com o coração aberto, pois, se o objetivo da performance era romper com a realidade ou simplesmente chocar, as críticas eram a prova de que objetivo foi alcançado; por outro lado, se havia uma mensagem a ser passada nesse produto direcionado a um público amplo que não absorveu o que foi dito, a culpa, no fim, não é de quem escuta ou vê, mas de quem fala ou mostra. Afinal de contas, se eu não curti a arte de explorar merda, Macaquinhos, tem culpa eu?
Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!
Alegre, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir |
O que o costume rigorosamente dividiu. |
Todos os homens se irmanam | 2X
Ali onde teu doce vôo se detém. |
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,|
Uma única em todo o mundo. |
Mas aquele que falhou nisso | 2X
Que fique chorando sozinho! |
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e |
Um amigo leal até a morte; |
Deu força para a vida aos mais humildes | 2x
E ao querubim que se ergue diante de Deus! |
Alegremente, como seus sóis corram
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.
Alegre, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões se deprimem diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora.
(Ode À Alegria)
Beethoven – andamento final, Sinfonia n. 9 in D Minor)
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